Cirurgia de Catarata pelo SUS É Segura? O Que Você Precisa Saber Antes de Operar

Sim, a cirurgia de catarata pelo SUS é segura. A técnica utilizada na rede pública é a mesma da medicina privada, os cirurgiões são especialistas habilitados e o resultado visual pode ser igualmente eficaz. 

O procedimento realizado pelo SUS segue o mesmo padrão técnico adotado em clínicas e hospitais privados de todo o país. A facoemulsificação, técnica que fragmenta e aspira o cristalino opacificado por meio de ultrassom, é o método padrão nas unidades públicas habilitadas. A anestesia é local, o tempo cirúrgico é semelhante e a lente intraocular implantada cumpre a mesma função de restaurar a visão.

O que o sistema público oferece ao paciente:

  • Avaliação oftalmológica completa antes da cirurgia
  • Exame de biometria para cálculo da lente intraocular
  • Procedimento cirúrgico com anestesia local
  • Lente monofocal padrão, sem custo
  • Acompanhamento pós-operatório nas consultas de retorno

O que não está disponível na rede pública:

  • Lentes multifocais, tóricas ou de foco estendido
  • Cirurgia com laser de femtossegundo
  • Escolha do tipo de lente por preferência do paciente

A limitação não está na segurança. Está nas opções tecnológicas disponíveis.

O Ponto de Atenção Real: Onde a Cirurgia É Feita

A segurança de qualquer cirurgia depende menos do setor, público ou privado, e mais da qualidade da unidade onde ela ocorre. Hospitais universitários, institutos de referência em oftalmologia e centros especializados credenciados pelo Ministério da Saúde realizam cirurgias de catarata com padrão técnico elevado, equipamentos adequados e equipes treinadas.

O risco aumenta quando o procedimento é realizado em ambientes sem estrutura suficiente, sem protocolos rigorosos de esterilização ou sem equipe habilitada para lidar com complicações. Isso não é uma característica do SUS como um todo, mas de serviços mal organizados que existem em qualquer sistema de saúde.

O que garante segurançaO que representa risco
Unidade hospitalar credenciadaAmbientes improvisados ou temporários
Cirurgião com especialidade em oftalmologiaProfissional sem titulação comprovada
Protocolo de esterilização rigorosoReutilização indevida de materiais
Triagem pré-operatória completaAvaliação clínica insuficiente
Estrutura para atendimento de urgênciaAusência de suporte pós-operatório

Mutirões: Onde Mora a Controvérsia

Os mutirões de cirurgia de catarata são ações organizadas para reduzir a fila de espera de forma acelerada. Em muitos casos, funcionam bem e beneficiam milhares de pacientes com segurança. Em outros, falhas graves de organização transformaram o que deveria ser uma solução em tragédia.

Episódios documentados no Brasil revelaram contaminações em série após falhas nos processos de esterilização de equipamentos em eventos realizados em ambiente temporário. Pacientes que deveriam recuperar a visão terminaram com infecções graves, em alguns casos com perda irreversível do globo ocular.

Esses casos são excepcionais, mas reais. E revelam um princípio importante: a lógica de volume não pode sobrepor a lógica de segurança.

O Conselho Brasileiro de Oftalmologia desenvolveu diretrizes específicas para a realização de mutirões oftalmológicos, estabelecendo que os procedimentos devem ocorrer em unidades com histórico comprovado de atendimento naquele tipo de serviço, com cirurgiões detentores de título de especialista e com protocolos sanitários equivalentes aos adotados em cirurgias eletivas convencionais.

Antes de aceitar participar de um mutirão, o paciente tem o direito de saber onde a cirurgia será realizada, quem é o médico responsável e qual é o protocolo de esterilização adotado.

A Fila de Espera: O Maior Desafio do Sistema

A principal desvantagem da cirurgia de catarata pelo SUS não é a qualidade técnica. É o tempo de espera.

A catarata lidera as demandas cirúrgicas da rede pública brasileira. Com centenas de milhares de pedidos registrados anualmente, o tempo médio nacional entre a solicitação e a realização do procedimento gira em torno de 45 dias, mas essa média esconde realidades muito distintas entre estados.

Em regiões com menor densidade de especialistas, como partes do Norte e do Nordeste, a espera pode ultrapassar quatro meses apenas para a cirurgia, sem considerar o tempo anterior gasto em consultas e exames preparatórios. Nas grandes capitais, especialmente no Sudeste, o acesso tende a ser mais ágil.

A distribuição de oftalmologistas no Brasil é profundamente desigual. Alguns estados concentram mais de dez especialistas por 100 mil habitantes, enquanto outros mal chegam a quatro. Essa disparidade explica muito da diferença no tempo de espera entre regiões.

O Programa Agora Tem Especialistas

Em 2025, o governo federal instituiu o programa Agora Tem Especialistas com o objetivo de reduzir as filas de cirurgias eletivas, com prioridade declarada para oftalmologia e especificamente para a catarata.

O programa permite que pacientes cadastrados no SUS sejam atendidos em unidades privadas credenciadas, sem custo, ampliando a capacidade de atendimento sem exigir novos investimentos em estrutura pública. Municípios de regiões com menor acesso têm sido priorizados nas primeiras etapas de execução.

Para o paciente, isso significa que, dependendo do município, a cirurgia pode ser realizada mais rapidamente e em uma clínica particular conveniada, mantendo a gratuidade integral do procedimento.

SUS, Plano de Saúde ou Particular: Como Decidir

A escolha entre as opções disponíveis depende de fatores clínicos, financeiros e regionais. Não existe uma resposta única.

Opte pelo SUS quando:

  • O caso não é de urgência imediata
  • A lente monofocal atende às necessidades visuais do paciente
  • Há acesso a uma unidade de referência de qualidade na cidade ou região
  • O custo do procedimento particular é inviável

Considere plano de saúde ou particular quando:

  • Há deterioração visual rápida e a espera representa risco à qualidade de vida
  • O paciente deseja lente multifocal, tórica ou tecnologia mais avançada
  • A unidade pública disponível na região não inspira confiança
  • O tempo de espera local é excessivo para o quadro clínico

Quem possui plano de saúde tem cobertura garantida para a cirurgia convencional de catarata, conforme regulamentação da Agência Nacional de Saúde Suplementar. A técnica com laser de femtossegundo, por não constar como obrigatória no rol de procedimentos, depende de previsão expressa no contrato do plano.

Como o Paciente Pode Se Proteger ao Operar pelo SUS

Conhecer os próprios direitos é a melhor forma de garantir segurança dentro do sistema público. Antes de concordar com a realização da cirurgia, é razoável que o paciente verifique:

  • Se o médico responsável pelo procedimento possui registro de especialista em oftalmologia
  • Se a cirurgia ocorrerá em hospital ou clínica credenciada, não em espaço temporário
  • Se há protocolo formal de higienização e esterilização de materiais na unidade
  • Se a avaliação pré-operatória incluiu biometria ocular e exame clínico geral
  • Se existe estrutura local para atender complicações no pós-operatório

Essas perguntas não são exigências desproporcionais. São critérios mínimos que qualquer serviço de saúde responsável deve atender, independentemente de ser público ou privado.

Conclusão

Pacientes operados pelo SUS em unidades de referência relatam resultados visuais semelhantes aos obtidos na rede privada com lente monofocal. A recuperação segue o mesmo caminho: melhora funcional nas primeiras 48 horas, estabilização visual progressiva ao longo de quatro a seis semanas e retorno às atividades cotidianas logo após o procedimento.

A principal diferença no resultado final está na lente escolhida. Com a lente monofocal disponível no SUS, o paciente geralmente passa a enxergar bem de longe, mas continua dependendo de óculos para leitura. Quem deseja independência total dos óculos precisa optar por lentes premium, disponíveis apenas na rede privada.

A cirurgia de catarata pelo SUS é uma opção legítima, segura e clinicamente eficaz para a maioria dos brasileiros. A chave está em saber onde operar, com quem e em quais condições. Informação é, nesse caso, parte do tratamento.

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