O fast fashion vai sair de moda?

De um lado, a necessidade de ser mais sustentável, de outro, o apelo pelo look da temporada. Quem são os responsáveis por encontrar o meio do caminho no mundo da moda?

Já falei muito sobre os problemas das Fast Fashion aqui na coluna, não no sentido de demonizar esse modelo de negócios (O Diabo vestia Prada e não Zara, né?), mas para entender essa dicotomia: ao mesmo tempo em que vende e gera empregos, também causa grandes impactos ambientais e sociais (apesar dos movimentos que valorizam uma moda local, autoral e justa para os trabalhadores e o meio ambiente).

Aqui procuramos chegar a um equilíbrio, com bom senso, cutucando não só a indústria como também os consumidores. E já aproveito para questionar a real necessidade que temos de comprar mais uma blusinha, mais um tenizinho, ainda que já os tenhamos em quantidade/variedade suficientes para vestir e calçar o resto da vida. Olhe para seu guarda-roupa e me diga se estou errada! Eu também vivo meus dilemas nessa esfera do consumo, me policio o tempo todo pois as tentações são grandes! A todo momento somos bombardeados com ofertas para comprar coisas das quais não precisamos, mas que a mídia e o marketing nos fazem acreditar que sim, é ou não é?

Mas nem todos possuem tal consciência ou privilégio, temos de convir. No quesito econômico, a pessoa vai comprar o que ela puder pagar para se sentir incluída socialmente (não é para isso também que a moda existe? Para nos dar a sensação de pertencimento e distinção?), e a Fast Fashion, o camelô com as falsificações acabam sendo a única opção de ter acesso às marcas de desejo ou ao estilo da vez. Tem o brechó, claro, mas muitas sonham em adquirir algo só seu, escolhido por elas, não o que sobrou ou foi descartado. Isso eu consigo entender, assim como acredito que as classes desfavorecidas deveriam ter o direito de poder comprar uma peça novinha uma vez que outra, ao invés de só receberem doação, escambo ou segunda mão.

É, a menina ali da comunidade deveria poder comprar a tal blusinha da moda, o cropped que fala espanhol, chinês ou sueco, conforme a rede que ela procurar. Também temos as versões nacionais: a Renner, do Rio Grande do Sul, opera no sistema fast fashion mas reviu sua operação e tem a sustentabilidade como um de seus valores desde 2013, ou seja, o tema já faz parte do dia a dia da companhia, independentemente do cenário externo. A empresa vem demonstrando uma atuação ampla e sólida nesta área, que contempla desde o desenvolvimento dos produtos até a relação com os fornecedores, passando pelo desenho das lojas físicas, o uso de energias renováveis de baixo impacto nas operações, até chegar ao pós-consumo.

Sabemos, através de documentários e matérias, a problemática da produção de roupa, que muitas vezes é terceirizada para outras fábricas, sem que a própria marca saiba quem está produzindo suas roupas, e em quais condições. Isso resulta em casos dramáticos como o de cartas ou bilhetes implorando ajuda encontradas escondidas em roupas. Sim, a exploração não vem direto da marca, mas ela será sempre responsabilizada pelos terceiros que contratar ao longo da cadeia de produção, e isso já vimos acontecer em Bangladesh, no triste episódio do Rana Plaza.

Além da possibilidade real da existência de trabalho escravo na produção de roupa para grandes marcas, há o aspecto de sustentabilidade que não pode ser ignorado. A sueca H&M, por exemplo, produz um relatório de sustentabilidade anualmente, demonstrando medidas tomadas para promover um processo de produção mais sustentável. A ela seguiram a holandesa C&A e a espanhola Zara, todas com uma política de receber doações de roupa velha, de qualquer marca, para serem recicladas ou doadas. Enquanto os relatórios deixam evidente que as marcas estão buscando reduzir seus impactos, não há como negar o quão difícil se torna alcançar tais metas, uma vez que o objetivo e o modelo de fast fashion estão essencialmente em desacordo. Por natureza, a tal moda rápida é um negócio de volume e é exatamente isso o que pesa em nosso planeta. Já temos roupas demais, descarte em excesso, cemitérios têxteis a céu aberto.

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